Ouvia-se mais da noite
Que o mar pudesse suscitar
Sob o luar como vetor
Era onde queríamos estar
As vezes é preciso
Soltar as amarras do mundo
Cortar arestas do tédio
Num mergulho breve, profundo
Pensar no agora
Prenúncios do amanhã
Viver a cor da noite
Como se já fosse manhã
A música amanhece
Nas ondas do luau
A lua se perde
Da sua nuvem natal
Improváveis atalhos da vida
Deslizam sob nossos pés
E o chão da vida vivida
Não sabe bem o que é
Um novo amanhã chegando
E sua luz vem vindo
As vezes o mundo tá indo
E nós vamos voltando
Não importa o tamanho
O tapete somos nós
Tecemo-o com sonhos
E nosso sonho é sempre maior
Os antepassados
Com suas teorias iniciais
Perderam-se no tempo
Realidades artificiais
Bom é viver o agora
Energia urgente que se foi
Anda sempre para frente
Para não tropeçar no depois
Tudo já foi revelado
Quase se perde a conta
Embora há ainda segredos
Que só a noite conta
Num dia desses e daqueles
O agora é que são elas
Em momentos recentes
O presente já era
A música do mar que pelo ar se esvai
Traz consigo esperanças
Para almas simples que atrai
Porém nem tudo se alcança.
O tempo irmão do vento
É fugaz em suas mãos
Os sonhos servem de alento
Nos momentos de solidão.
As redes tristes que se estendem
Se sustentam em mãos firmes
Mãos fortes, persistentes.
Estas mentes livres não perdem a calma
Quando o mar não os reconsidera
Pois há abundância, ao menos à alma.
Meu coração que possui ímpeto de voar
Voou pelos ares do destino
Meus olhos que detêm o dom de sonhar
Viviam somente amores clandestinos
E agora a realidade me pune
Um sentimento novo nutre meu ser
E eu que achava que meu coração era imune
Sinto a felicidade entrar e se estabelecer.
Se devo ser julgado por ser sonhador
Exijo uma prisão com janelas para o céu.
Se mereço ser condenado por ser um sonhador
Desejo a pena de morte,
Pois assim minha alma voará livre,
por todos os lugares que sonhei.
A sombra da montanha
Chega sem alarde
Um banho de água fria
Na ducha do sol da tarde
As sem-razões do acaso
Na triagem das verdades
Luz encharcada, não por acaso
Na ducha do sol da tarde
A janela espreita
A cortina que arde
A iluminação, a certeza
Na ducha do sol da tarde
Tudo tão limpo
Onde quer que se esteja
O passado, passado a limpo
Na ducha do sol da tarde
Quem vive de incertezas
E sem motivo
Com toda certeza
Não tem um amigo
Tantas histórias
De tantas épocas
Saudade notória
Conversas desconexas
Somos cães abandonados
Mas temos uma matilha
Somos levados
Todos pela mesma trilha
Uma sombra, um abrigo
Uma onda se propagando
Quem já teve um amigo
Sabe o que estou falando
Todo homen, toda mulher
É uma ilha
Basta uma trilha
Para se encontrar
Vida breve
Ânsia em explorar
Caminho que estreita
E deságua no mar
Vento sopra forte
Pleno velejar
Sonhos de sul e norte
Ambos no mesmo lugar
Travessia tão curta
Seja para onde for
A distância é a vida
E a ilha é o amor.
Pensamentos cotidianos
Evaporam sob a luz da lua
Para voar mais alto
Siga o endereço da rua
A lua cega que espia
Nutri sonhos
E ainda irradia
A escuridão do sono
Luz romântica
Fluorescência nua
Física quântica
E tantas outras loucuras
Infinitos mistérios
Foram-lhe atribuídos
Não são poucos os critérios
Sem nem mesmo tê-los resolvido
Lua cheia de carinho
Desejo de lua nova
Se desvias do caminho
A lua está de prova
Reencontro, iluminação
Reinvenção do dia que morreu
O que é o luar, senão
Olhos noturnos de Deus
O ar em movimento,
Tão afoito em vasculhar as folhas
Acaba derrubando a sombra.
Quis então o menino vencer o ar
Com as asas penduradas no vento
Na ânsia do infinito escalar
Distancio-se demais no firmamento
Mais acima, e de repente,
O astro-rei a brilhar
Sua luz se fez presente
No céu do seu olhar
Do pai não ouviu o apelo
Ante sua sublimação
Continuou a sonhar
E esse então, não pode detê-lo
Viu o sonho em combustão
E o menino voando no mar.
Quando o homem branco chegou,
Do além mar
Sua ganância obrigou
Os donos dessas terras
A fugir para as serras.
Da sua oportuna reserva,
Um velho índio disse
Que o eco somente existe,
Pois anjos caídos
Teriam respondido
Ao clamor de seus ancestrais.
Eles viviam tão em paz
Que os deuses, em seu amparo
Enviaram anjos demais.
E do ócio dessa legião
Nasceu a repetição
Eles refletem tão perfeitamente
Que parece mesmo
A voz da gente.
Antes, porém
Do primeiro ancestral aparecer
Já havia um outro ser
O velho índio não quer saber
O homem branco, muito menos
Talvez nem se importem mais
Mas quem descobriu o eco
Foram os animais
Como se sentisse o poeta
Cegamente atraído
Pelos prazeres do acaso
Corpo vivo e mente aberta
Metáforas e rimas
Frenesi solícito em texto
Implícito no contexto
Da coisa íntima
Quem lê
Com o mesmo enredo
Do seu universo
Sem querer
Revela seu segredo
Então o poeta goza em versos.
O vento do norte
Não queria ser ouvido
Então, sussurrou aos ouvidos
Do poeta mais atento
Que em seu alento
Recostou em uma concha
E na ressonância calma
Entendeu seus lamentos
De naufrágios e furacões
De almas à deriva
No reino de Poseidon
Por fim, quando o vento serena
O poeta mergulha fundo
Em mais um poema.
Os versos ternos
Debruçados no papel
Podem ter um papel eterno
Para aqueles que lêem
Na mesma sintonia
Que os versos têm
O poeta talvez
Nem tivesse
Tal pretensão
Resignado,
Sabe que não é eterno
Mas seus versos serão.
O poema sorve
Lentamente
Gota a gota
O suor da emoção.
Uma mão prepara
Apressadamente
Letra a letra
Uma breve composição.
É como se gotas
Já fossem versos
Enquanto frios
No calor do coração.
Ora encontrado em livros
Ora no pensamento vivo
Ou até quem sabe, então
Um papel sujo, amassado no chão.
Olho com os olhos do menino
Que existe dentro de mim
Curiosidade monástica
A observar a estrada sem fim.
Com os olhos do homem
Com o qual me pareço
Vejo o que ficou para trás
E não enxergo mais o começo.
Antes que a morte insista
Em colocar sua máscara
Qualquer destes dias
Deus por favor permita
Que este homem e menino
Vivam em perfeita harmonia.


